Meritocracia e Ponto de Vista
O artigo nos aponta uma situação evidente em ações afirmativas na questão da inserção da população desfavorecida do Brasil em universidades, especificamente em São Paulo, mas facilmente aplicada a qualquer localidade nacional. A questão entre a Lei de Cotas e o PIMESP foi algo tratado no artigo com firme análise e profundo entendimento das origens e das composições sociais e históricas que resvalam nessas duas ações afirmativas que, julgam estar auxiliando a causa desfavorecida no Brasil, mas que de certo modo acabaram por respaldar a discriminação e preconceito em universidades, mas que com o esclarecimento certo das pessoas certas possa ser ressignificada e adaptada para melhor atender as necessidades sociais dando suporte a equidade e não a igualdade.
O estudo feito apresenta a proposta do PIMESP de reservar até 50% das vagas para pretos, pardos e indígenas, e ainda um auxílio acadêmico com um curso preparativo de dois anos para o vestibular. Ao que tudo indica não a nada que desabone, porém opiniões de universitários e estudiosos das áreas sociais e históricas apontam que essas medidas desvalorizam e insinuam que, tais pessoas pertencentes a estes grupos não possuem a capacidade para conquistar uma vaga em uma universidade com capacidade individual para tal. Diferente da Lei de Cotas que apenas separa as vagas para maior inclusão dos grupos minoritários do Brasil.
Essa discussão ganha argumentos com alguns dos trechos do texto que nos apresentam exemplos relativos à situação: "Para explicitar o debate que se coloca, tomemos como exemplo dois atletas que disputam uma mesma corrida visando à mesma linha de chegada. O atleta A larga 400 metros à frente do atleta B. Além disso, A conta com toda sorte de apoio e recursos tecnológicos e de outras ordens para maximizar sua prévia preparação e o desempenho durante o percurso. B, por sua vez, além da largada tardia, conta com toda sorte de carências obstáculos e, em muitos momentos, tem que correr carregando pesos, puxando consigo outras pessoas, dividindo seus esforços com a realização de tarefas concomitantes, entre outras dificuldades. Enfim, A faz o trajeto em duas horas. B o faz em três horas e meia. Como discutir o mérito de tais performances? É o mérito, na acepção que tem sido tradicionalmente utilizada, noção válida e suficiente para julgar estas performances? Esta metáfora recria de maneira caricatural a disputa travada entre brancos (A) e negros (B) pelo ingresso na universidade pública brasileira. Entendemos que, diante desse quadro, a utilização da noção de mérito individual não apenas não se fundamenta como incorre no não comprometimento com uma injustiça social dada e histórica. A inércia em desvelar e atuar de maneira coerente neste caso tem como fundamentos tanto o fato de que o silenciamento colabora para que parcelas continuem usufruindo de privilégios, quanto a representação de quem, de fato, deve ser o sujeito dos privilégios sociais." Os parâmetros que julgam quem possui e quem não possui as qualificações para entrar em universidades são os mesmos e não diferenciam razões de raça, etnia, nem cor, o que é prejudicial para as populações minoritárias levando em consideração que nem todos iniciam do mesmo ponto de partida para alcançar o mesmo objetivo. Por isso as ações afirmativas, dentro da metáfora citada, tomam essa missão de igualar as chances para os dois corredores, o ponto delicado dessa discussão é que uma parte muito grande das opiniões sobre a política de cotas leva questão para a capacidade e mérito próprio, e esquecem do trajeto individual e das bagagens sociais, históricas e culturais que cada um traz consigo.
Outro trecho do artigo conclui essa discussão e traz um ponto final que abate a meritocracia e o ponto de partida de forma prática: "O mérito baseado em desempenho individual só poderá ser considerado como medida fidedigna de avaliação dos repertórios de estudantes, se forem tomados como parâmetro sujeitos com históricos semelhantes de preparação para o exame vestibular (nesse caso, não cotistas competem com não cotistas e cotistas com cotistas). Em outras palavras, o mérito só pode estar em discussão quando se toma como referência sujeitos de igualdade, isto é, quando se avalia a disputa entre iguais.". Considerando isso, podemos então finalizar e chegar a um entendimento mútuo de que as políticas raciais em favor dos estudantes universitários merecem uma atenção dobrada para não afligir a integridade de todo um povo, e ainda assim auxiliar um lado defasado pela própria história nacional.