Síndrome de Ulisses

Aqui iremos trazer alguns relatos de imigrantes e refugiados, e também trechos do filme
‘‘Alice no país das maravilhas’’ para explicar melhor as causas e consequências de uma
condição mental estabelecida por preconceito e rejeição social.


A Síndrome de Ulisses

Primeiro vamos nos localizar em o que é a síndrome de Ulisses para assim conseguir expor
suas consequências na vida dos refugiados e imigrantes.

Síndrome de Ulisses, é uma condição mental específica que afeta indivíduos em contato
direto com outras culturas e os sintomas incluem estados depressivos severos e estresses
múltiplos. Em algumas situações desenvolvem dependência química e mesmo começam a
experimentar dores físicas em busca de alívio.


(Para mais informações acesse:
https://jornal.usp.br/atualidades/imigrantes-podem-sofrer-com-uma-condicao-de-estresse-multiplo-a-sindrome-de-ulisses/)

É importante aqui ressaltar que à diferença para uma ansiedade, pois na síndrome de
Ulisses o contato é direto com a causa dos sintomas. Já na ansiedade é um sofrimento
antecipado de um suposto evento.



Albert Ellis ABC

Para evidenciarmos de uma forma mais clara, iremos trazer o sistema ‘’ABC’’ criado por
Albert Ellis (1913-2007), psicólogo criador da terapia racional-emotiva comportamental
(TREC), que mais tarde abriu as portas para o que conhecemos hoje por TCC ( Terapia
cognitiva-comportamental ).
Nessa teoria, segundo Ellis, é composto por três etapas, sendo elas A, B e C. A seria o
evento ativador, B seria nossa crença, sentimento ou julgamento sob, e C por fim, seria a
consequência que B tem sobre nosso comportamento.
Um exemplo muito usado é uma pessoa detém depressão após um término/divórcio,
rapidamente associamos o comportamento depressivo ao ocorrido, mas, na teoria de Ellis a
causa está entre esses dois pontos, a emoção que foi posta ao julgar o evento seria essa
causa. Sentimentos irracionais, exageradamente prestigiados, podem trazer pensamentos
como ‘‘a culpa é minha pois fui insuficiente’’, ‘‘sou um fracasso’’, ‘‘era o amor da minha
vida’’ ou ‘‘não conseguirei viver sem’’, e esses pensamentos fora do nosso controle emocional podem, e geralmente vão, trazer consequências avassaladoras para o dia a dia.
Iremos trazer alguns relatos e comparações lógicas para que seja melhor interpretado o
pensamento de uma pessoa com síndrome de Ulisses
.


A esperança


A seguir teremos um relato de um refugiado Nigeriano, aqui no Brasil, que mostra a
dificuldade, medo e o impacto que a nova cultura tem na vida da pessoa.



Para ficar mais claro: penso que irei morrer, sinto medo, e com isso meu comportamento é buscar uma rota de fuga para que eu permaneça vivo.
Aqui fica claro que à chegada ao seu destino é com o sentimento de esperança e vemos que mesmo que a chegada podendo ser receptiva ou não, no caso o refugiado, ele chega ao novo território debilitado mentalmente.

Além da segurança, que foi o motivo principal a fazê-lo tomar as atitudes que tomou, o refugiado também está em busca da liberdade e vida digna, coisas essas que estão previstas no artigo 3º do Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Ressaltamos que a causa da síndrome de Ulisses não está no motivo pelo qual ele veio, e sim, as experiências que são vivenciadas por ele. Agora veremos uma fala da diretora de programas da Conectas, Camila Asano, que mostra como as atitudes do governo local podem dar aos refugiados e estrangeiros pensamentos de rejeição, que por consequência, podem virar uma futura síndrome de Ulisses.

“Desde o começo, foi discriminatório. O primeiro ato foi fechar a fronteira com a Venezuela, e não os aeroportos, sendo que as pessoas infectadas vinham da Europa ou da China. Aqui já mostra que a pandemia foi usada de forma seletiva para escolher quem pode entrar. E isso foi se repetindo ao longo dos meses. Desde julho de 2020, turistas estão permitidos por via aérea. Agora, para quem cruza as fronteiras, para quem cruza por terra estão fechadas. Com a nova portaria, cria-se uma espécie de válvula de escape para permitir que algumas pessoas possam entrar”. 

(Thays Martins
, 2021. Para mais informações:  https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/07/4936347-fome-desemprego-e-medo-as-dificuldades-enfrentadas-por-refugiados-no-brasil.html).

Preconceito racial e xenofobia seriam as definições mais corretas para atitudes que humilham o
próximo só por suas diferenças. E essa humilhação pode gerar
consequências avassaladoras na vida dos que à sofrem, por exemplo, a dependência química, é uma atitude ‘‘normal’’ recorrer ao uso de substâncias químicas em meio ao desespero ou humilhação. Para exemplificar de uma forma mais clara essas atitudes coloquemos em pauta alguns trechos do filme Alice no país das maravilhas (1951).
O primeiro, mais precisamente no minuto 00:24:00, em que Alice se depara dentro de uma casa menor do que ela, destruindo tudo por consequência do seu tamanho, a solução proposta pelos
habitantes que ali estavam foi colocar fogo na casa com ela dentro. Vemos então Alice pensando no perigo que está por vir e se sente acuada, logo, sua solução é comer uma cenoura a fazendo ficar tão pequena que sai despercebida da situação. Colocando em comparação com a realidade, a humilhação e desrespeito colocados na vida do estrangeiro que ali estava foi tamanha que Alice opta por entorpecer a si, sair da situação despercebida e com vida.
Seja qual for o peso do entorpecente usado, álcool, tabaco ou drogas ilícitas, é usado como escape da situação a qual se depara, e assim remover o sentimento de angústia, causando pôr fim a dependência química apontada como um dos sintomas da síndrome.

O segundo trecho está logo após esse acontecimento, no minuto 00:26:20, em que Alice entra em um jardim de flores falantes que cantam em um lindo coro, deixando-a admirada por toda a
receptividade e harmonia das flores. Mas, assim que as flores notam que Alice não é uma igual a elas é expulsa do jardim a força de forma humilhante, deixando assim, que os únicos sentimentos expressados pela personagem fossem estresse e raiva.

Veremos a seguir um pequeno corte de uma entrevista feito pelo canal Mescla, para conseguirmos deixar nítido como é humilhante ser tradado com diferença no lugar onde depositamos nossas esperanças de vida.

‘‘Chegar ao Brasil, você não pensa em sofrer racismo, né?’’ Fala feita por alguém que sabe o que é o preconceito. Mas, e as pessoal que sofrem discriminação sem saber? como dito no vídeo, um ‘‘preconceito tão sutil’’ que machuca, na maioria das vezes, sem usar uma única palavra.
Preconceitos esses, que vemos diariamente sendo feito pelos adultos, em comportamentos que são imitados pelos mais jovens, discorrendo assim, um preconceito cultural passado nas tradições de convivência social de forma criminosa e horrenda.

Um acontecimento bem interessante a comentar sobre o filme Alice no país das maravilhas (1951) trazendo em paralelo, é a simbologia empregada no novo ambiente e a dificuldade que Alice tem a entender o novo mundo, retratada diversas vezes ao decorrer do filme. Um ótimo exemplo seria o “desaniversario” onde o que era para ser uma tarde de chá comum se transforma em uma enorme festa catastrófica, e ainda assim, aplaudida. Dentro disso, Alice demonstra cada vez mais o desconforto com o deslocamento social emposto a ela.

Para finalizar, associando todos os relatos e exemplos dados acima, trago mais uma parte do filme deixando exposto a melancolia e solidão que essas experiências trazem.


 
Vemos Alice sem rumo, julgando a si mesmo como culpada de tudo, triste de forma tão grande que prefere parar ao tentar prosseguir a jornada.
Em grande parte, falamos “tudo vai passar” quando nos deparamos com uma pessoa debilitada
mentalmente, mas esquecemos de ouvir “tudo o que já passou” para estar dessa forma, nesse
momento o papel do psicólogo é muito importante, pois ele será a ponte entre o sofrimento e o
alívio.
Experiências ruins geram pensamentos ruins, mas, estar só em meio ao irracional fazemos
experiências ruins serem traumatizantes e consequentes a comportamentos depressivos e de alto rejeição, assim, tornando evidente uma síndrome de Ulisses e como é importante o auxílio
psicológico para todos, mas nesse caso, muito importante para os que vem de fora e procuram a simplicidade de ser como os demais.